A história do jovem que se salvou, mas perdeu dois irmãos, vítimas dos morcegos vampiros

Um adolescente brasileiro tornou-se a quinta pessoa no mundo a ser curada da raiva transmitida por morcegos. Mateus dos Santos da Silva, de 14 anos, foi um dos três filhos da mesma família que contraiu a doença em novembro do ano passado. O vírus matou seus dois irmãos: Lucas, de 17 anos e Miria, de 10.

Mateus foi mordido várias vezes por morcegos vampiros em Rio Unini, uma comunidade rural situada no Rio Negro, no Amazonas. Agora, o jovem fez uma recuperação notável após um tratamento pioneiro que o colocou em um coma induzido. Isso foi para proteger o cérebro e ajudar os pacientes a sobreviver o tempo suficiente, para que o seu sistema imunológico possa produzir anticorpos para combater o vírus.

Ele é a segunda pessoa no Brasil a ser curada da raiva, depois que Marciano Menezes, de Recife, foi salvo em 2009.

“A sobrevivência de Mateus é nada menos que um milagre. Ele ainda está se recuperando e está muito fraco, sem conseguir mover certas partes de seu corpo. O processo de recuperação envolve muitos riscos, mas estamos cheios de esperança, pois sabemos que o pior já passou. Estamos ansiosos para tê-lo em casa em breve, para vê-lo caminhando, conversando e rindo novamente”, disse o pai do menino, Levi Castro da Silva, 47 anos.

“A sobrevivência de Mateus é nada menos que um milagre. Ele ainda está se recuperando e está muito fraco, sem conseguir mover certas partes de seu corpo. O processo de recuperação envolve muitos riscos, mas estamos cheios de esperança, pois sabemos que o pior já passou. Estamos ansiosos para tê-lo em casa em breve, para vê-lo caminhando, conversando e rindo novamente”, disse o pai do menino, Levi Castro da Silva, 47 anos.

O jovem Matheus, em foto antes de ser infectado, se recupera ainda no Hospital (Facebook)

A raiva é uma infecção rara, mas muito grave, que afeta o cérebro e o sistema nervoso e quase sempre é fatal quando os sintomas aparecem. O vírus infecta o sistema nervoso central, causando confusão ou comportamento agressivo, alucinações, espuma na boca, paralisia e, finalmente, morte. A doença pode levar até nove meses para se manifestar.

Mateus foi internado na Fundação de Medicina Tropical (FMT), em Manaus, sofrendo de febre e formigamento nas mãos no mesmo dia em que sua irmã morreu. Mas o jovem sobreviveu depois de ser tratado com um novo tratamento, chamado de Protocolo de Milwaukee.

O procedimento experimental, criado pelo médico americano Rodney Willoughby, envolve a administração de medicamentos antivirais, enquanto coloca o paciente em um coma induzido quimicamente para proteger o cérebro de danos.

Ao longo do tratamento, as equipes médicas estavam em contato com o Dr. Willoughby, que monitorou e contribuiu com sua experiência para o caso. Mateus passou 40 dias em terapia intensiva (UTI) em coma induzido e respirando por aparelhos.

De acordo com o médico Antônio Magela, especialista em doenças infecciosas da FMT e que coordenou o tratamento, as chances do jovem foram impulsionadas por um diagnóstico precoce e sua hospitalização imediata. Infelizmente, este não era o caso de seus irmãos, que já estavam na agonia da doença.

“Mateus chegou apenas algumas horas depois que sua irmã morreu sofrendo de formigamento e dormência nas mãos, mas ele não teve sintomas neurológicos. Ele foi imediatamente internado e, na mesma noite, teve uma convulsão e teve que ser sedado e enviado para a UTI. Ele foi tratado desde o início com o Protocolo de Milwaukee, devido à história de ataques de morcegos”, conta Dr. Magela.

Depois de mais de um mês de tratamento, o jovem foi retirado este mês da UTI e já consegue sair da cama e ficar sentado numa cadeira. Espera-se que permaneça no hospital por pelo menos quatro meses para combater as complicações e para ajudar em sua reabilitação. Ele está sendo monitorado por pediatras, fisioterapeutas, nutricionistas, neurologistas e outros profissionais.

“É possível celebrar sua recuperação, mas temos que ser cautelosos, já que a doença pode deixar complicações. Mateus já está reagindo à presença de sua família e rejeitando alimentos que ele não gosta. Todas essas são boas notícias”, comenta Dr. Magela

“Além disso, o fato de que ele está engolindo espontaneamente e respirando de forma independente nos faz pensar que as áreas-chave do seu sistema nervoso foram preservadas ou estão se recuperando. O primeiro paciente a ser curado da raiva no Brasil foi hospitalizado por nove meses e ainda tem acompanhamento ambulatorial. Queremos garantir que este adolescente tenha a melhor recuperação possível. Portanto, ele continuará acompanhado por uma equipe multidisciplinar”, conclui o médico.

Irmã “encharcada” de sangue pelas mordidas dos morcegos

O pai de culpa as autoridade pela perda de dois filhos e a infecção de Matheus (Reprodução)

Sua sobrevivência foi saudada como um milagre por familiares e amigos na pequena comunidade da selva, pois Mateus tornou-se apenas a segunda pessoa no Brasil a vencer o vírus mortal.

O pai de Matheus disse que, enquanto comemorava a perspectiva da recuperação de seu filho, continuava preocupado com o fato de as autoridades não terem protegido a comunidade com vacinas preventivas e medidas para controlar as criaturas sugadoras de sangue, prevalecentes na área florestal.

“Meus filhos foram contaminados com a doença devido à falta de informação. Nunca recebemos orientação sobre a prevenção da raiva humana. Mais de 88 pessoas em nossa área foram mordidas por morcegos em 2017. Nós relatamos os incidentes, mas nunca obtivemos ajuda. Se tivéssemos, talvez todos os meus filhos estariam vivos hoje. Todos os dias, durante mais de um ano, minha filha de dez anos, Miria, amanhecia encharcada de sangue de mordidas nos cotovelos, nas mãos e nos dedos dos pés”, relata o pai.

“Ela sofreu mais de 20 mordidas durante este período. Mas os sintomas da doença levaram algum tempo para aparecer. Miria ficou mal na mesma semana que meu outro filho, Lucas, ficou doente”, conta.

Lucas, de 17 anos, morreu no hospital em novembro do ano passada de encefalite viral, uma inflamação no cérebro. Ele havia sido mordido mais de dez vezes, desde 2016, pelos mamíferos noturnos. Uma autópsia descobriu que o adolescente estava infectado com o vírus que causa a raiva humana.

Miria foi hospitalizada por 16 dias e foi submetida a um tratamento urgente para combater o vírus, mas morreu em 2 de dezembro do ano passado.

Primeira cura no mundo e no Brasil

O Pernambucano Marciano Menezes foi a primeira pessoa do Brasil que sobreviveu ao vírus (Facebook)

Uma adolescente dos EUA tornou-se o primeiro paciente conhecido no mundo por ter sobrevivido à raiva sem receber a vacina contra a raiva. Em 2004, a estudante Jeanna Giese, de 15 anos, foi mordida por um morcego que pegou enquanto frequentava a igreja em sua cidade natal, no estado do Wisconsin.

Trinta e sete dias após a mordida, ela foi internada no hospital com visão dupla, fala arrastada e paralisia em seu braço esquerdo. O Dr. Rodney Willoughby a tratou com sucesso com o protocolo de Milwauke.

A menina saiu do coma após seis dias e, após 31 dias no hospital, foi declarada sem vírus e removida do isolamento.

No Brasil, Marciano Menezes, de Recife, fez história depois de se tornar a primeira pessoa no Brasil a ser curada da raiva em 2009. Ele foi mordido no tornozelo por um morcego vampiro enquanto dormia.

Depois que ele deixou a UTI, o rapaz, que agora tem 24 anos, foi submetido a cirurgia ortopédica em seus membros superiores e inferiores que se atrofiaram. Ele permanece confinado a uma cadeira de rodas, mas sonha em voltar a andar um dia.