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O beijo de Judas - Ricardo Marques

O beijo de Judas - Ricardo Marques

Autor: Valdir Rios | Esse o POVO não esquece | 22/07/2026 17:33 | 25 visualizações
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Heráclito ensinava que o caráter é destino. Séculos depois, Nelson Rodrigues transformou essa verdade em literatura, mostrando que ninguém consegue fugir da própria natureza. Na política, às vezes, o destino apenas encontra a oportunidade de se revelar.

Há traições que não surpreendem pelo resultado. Surpreendem pela ingratidão.

A Bíblia eternizou o beijo de Judas. Não foi o gesto que escandalizou a História, mas o seu simbolismo: quem caminhava ao lado de Jesus foi justamente quem o entregou.

Na política, alianças começam e terminam. Isso faz parte da democracia. O problema não é mudar de lado. O problema é fazê-lo depois de reconhecer, em público, que foi exatamente aquele aliado quem lhe abriu as portas, quem lhe estendeu a mão e quem transformou a realidade da cidade que hoje administra.

Num dia, o prefeito Rildo Amaral faz sucessivos elogios ao governador Carlos Brandão, atribuindo a ele obras e ações que mudaram Imperatriz. Na manhã seguinte, optou por outro projeto político, fazendo surgir uma pergunta inevitável: o que mudou? A realidade… ou a conveniência?

O Maranhão conhece esse roteiro. Em toda eleição aparecem personagens que descobrem novas convicções exatamente quando colocam seus interesses pessoais acima da lealdade e da coerência. Uns chamam isso de estratégia. Outros enxergam apenas a velha ingratidão travestida de cálculo político.

A política não exige fidelidade eterna. Exige coerência. Porque a memória do eleitor pode até demorar, mas quase sempre cobra a conta.

Os mandatos passam. Os acordos mudam. As conveniências se reinventam. A reputação, porém, permanece.

E, no fim, Heráclito continua tendo razão: o caráter sempre acaba escrevendo o destino.

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