Quando a Constituição incomoda - Ricardo Marques
Descobrimos uma coisa fascinante sobre a Constituição brasileira:
aparentemente, ela tem momentos de extraordinária vitalidade.
Quando uma investigação chega perto de um ministro do Supremo, por exemplo,
cada vírgula processual ganha a importância das Tábuas da Lei.
Paulo Gonet diz que André Mendonça não poderia ter mandado aprofundar a investigação sobre Alexandre de Moraes daquela maneira. Faltou autorização, faltou competência, faltou rito...
Pode ser.
Direito é rito também.
Na primeira sessão do Supremo depois da divulgação do relatório, nenhum ministro tratou do assunto em plenário.
Dez ministros.
Nenhuma palavra.
Parece que, no Supremo, até o silêncio obedece ao rito.
Mas aí surge uma pergunta inconveniente: quando uma investigação autorizada por Moraes alcançou pessoas apontadas como fontes de um jornalista — protegidas por garantia expressamente prevista na Constituição —, onde estava todo esse zelo constitucional?
Agora, o próprio presidente do Supremo, Edson Fachin, reconhece a “especial gravidade” do momento e lembra que a autoridade do cargo não confere privilégios, mas impõe deveres, limites e responsabilidades.
É exatamente esse o ponto.
A Constituição não pode funcionar como guarda-chuva de autoridade: abre quando começa a chover sobre Brasília e fecha quando a tempestade cai sobre os outros.
Se a investigação contra Moraes é ilegal, que se reconheça a ilegalidade.
Mas que o mesmo rigor jurídico valha para o ministro, para o banqueiro, para o jornalista e para qualquer cidadão.
Garantia constitucional não tem CPF.
Muito menos cargo.
Veja o comentário em vídeo (aqui)
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