ASSISTA AO VÍDEO: Conheça história de gari compositor que sonha em conhecer Xanddy

O gari da empresa de engenharia sustentável Revita, Carlos Correia, 38 anos, o Ferrary, sempre teve talento para rima. Ele é aquela espécie de artista que leva jeito para coisa, porém, por falta de oportunidade ou pelo destino que não costuma ser generoso com todos, não tem a chance de viver da sua arte. Antes mesmo de ser gari, Carlos é, sobretudo, compositor, de quebradeira, ou para ser menos informal, de pagode baiano.

E como qualquer outro artista, Ferrary também tem aqueles momentos de inspiração, o que os mais entendidos chamam de processo criativo. A inspiração, aliás, vem durante a jornada de trabalho. É sempre assim: “Eu estou lá varrendo a rua quando eu começo a rimar. Ai vou cantando, rimando…”, conta Ferrary.

Para não esquecer as rimas, Ferrary grava alguns refrões pelo aparelho celular e deixa a música de molho para, no fim do expediente, já em casa, lapidar o “material bruto”. Foi assim, inclusive que, no ano passado, enquanto deixava limpa as ruas do bairro de Caminho de Areia, surgiu uma música que, acredita Ferrary, vai servir de ponte para realizar os seus sonhos.

O primeiro sonho é viver da música, compondo; o segundo é conhecer o Xanddy, do grupo Harmonia do Samba; o terceiro, se der, é subir em um trio elétrico, a convite do cantor. Quando estava compondo “Que molejo massa” era em Xanddy que ele pensava. Enquanto as palavras vinham à sua mente, conta Ferrary, ele conseguia imaginar o vocalista do Harmonia dando vida à sua criação.

Bom, pelo menos o cantor já conhece a música e, pelo visto, se mostrou interessado em marcar um encontro com o gari. Xanddy, em maio do ano passado, em seu perfil no instagram, publicou um vídeo de uma entrevista que o gari deu, também naquele ano, à Rede Bahia. Na legenda da publicação o vocalista disse: “Obrigado, Ferrari guerreiro! Gostei da música, do gogó e quero te conhecer, viu?”

“A reportagem era sobre o dia do gari. Eles me chamaram para cantar porque eu já era conhecido no trabalho. Mas, antes de entrar ao vivo, eu contei a repórter que fiz uma música pro Harmonia. Ela avisou que se fosse boa eu poderia cantar. E foi assim”, explica Ferrary.

 

O vídeo da publicação já foi visualizada mais de 60 mil vezes e até Carla Perez, esposa de Xanddy e o cantor Léo Santana curtiram o vídeo. O problema é que, mesmo se mostrando interessado no talento do gari, o encontro não aconteceu. Mas o gari ainda se mostra esperançoso, mesmo quase um ano depois da promessa.

“É Carnaval, então, as chances do encontro acontecer aumentam. Imagina eu subindo no trio. Ave Maria! Eu ia ficar nervoso, acho que nem ia conseguir cantar. Primeiro eu ia ficar de joelhos e agradecer a Deus”, disse.

Vida e Obra
Ferrary começou a compor aos 15 anos. Aos 18, recebeu um convite para se juntar a uma banda de bairro, a Linguagem do Gueto, onde era vocalista e recebia a alcunha de Kinho do Samba. Mas a carreira à frente do grupo acabou seis meses depois. “O empresário era muito esperto”, justifica ele.

Cansado de ser passado para trás, resolveu então apostar na carreira solo, mudando o nome artístico para Ferrary – uma homenagem a marca de carro italiana que, avisa o gari, se ficar famoso vai sair por aí dirigindo um exemplar.

Desde que começou a compor, o gari já produziu mais de 100 músicas, todas feitas pensando em algum artista e todas, claro, patentiadas, para ninguém lucrar às suas custas.

Todo artista tem seus altos e baixos durante sua carreia. No caso de Ferrary, ele teve mais azar que sorte, diga-se de passagem. Há 10 anos, lembra ele, com a ajuda da mãe, conseguiu gravar um CD. Com o material em mãos, tentaria entrar em um concurso de talentos.

Mas ele, vislumbrado, acabou saindo do estúdio sem uma cópia das músicas gravadas. O resultado foi que o CD foi entregue à produção do concurso, o convite para participar não chegou e nem o CD foi devolvido.

“E olha que minha mãe me deu vários conselhos : ‘Tire uma cópia, tire uma cópia’. Mas estava tão confiante de iria passar, de que iria ser selecionado, que acabei esquecendo”, lamenta.

Mas enquanto o convite de Xanddy não chega, ele vai produzindo outras músicas. Já fez também para Ivete Sangalo. Tentou até mostrar para a cantora, mas não passou do portão de entrada do Edifício Mansão Morada dos Cardeais, no Campo Grande, onde Ivete mora.

O gigante também não ficou de fora. Para Léo Santana, Ferrary fez “Quando ela chega no paredão”. Enquanto nenhum artista se interessa em gravar suas músicas, ele continua trabalhando como gari, ganhando pouco mais de um salário minímo.

“Se alguém gravar uma música minha? Ah, pai, eu largo tudo e vou viver só música, sempre quis isso”, disse, confiante.