Hoje é Dia de: José Carlos Aroucha - A AGONIA E MORTE DO RIO ITAPECURU, JUNTAMENTE COM SEUS AFLUENTES E SUBAFLUENTES
O Rio Itapecuru outrora foi um gigante imponente. Suas águas serpenteavam pelo Maranhão, levando vida e sustento às margens que o cercavam. Era o berço dos peixes, o espelho das matas, o caminho das canoas que, por décadas, transportaram histórias,
O Rio Itapecuru outrora foi um gigante imponente. Suas águas serpenteavam pelo Maranhão, levando vida e sustento às margens que o cercavam. Era o berço dos peixes, o espelho das matas, o caminho das canoas que, por décadas, transportaram histórias, sonhos e esperanças. Mas hoje, o rio está morrendo, agonizando sob os olhares omissos, negligentes e inoperantes das autoridades políticas e dos gestores ambientais.
- Seus dias de glória ficaram para trás, afogados no descaso e na poluição. O que antes era um fluxo generoso de águas cristalinas agora se arrasta em um fio barrento, sufocado por resíduos sólidos e contaminação. As matas ciliares, que outrora o protegiam como braços zelosos, foram suprimidas e queimadas sem piedade, cedendo espaços a pastagens e plantações que drenam e sangram sua essência. A terra nua desliza em suas margens, despejando sedimentos que o sufocam — como se fossem os últimos punhados de areia sobre um túmulo prestes a ser fechado.

Cenas “apocalípticas” do Rio Itapecuru/MA, poluído e contaminado por resíduos sólidos (lixo), efluentes domésticos, sanitários e hospitalares, com alto grau de degradação ambiental antrópica extrema, localizada no entorno dos municípios compreendidos e banhados pela sua bacia hidrográfica, na região dos Cocais/MA. (Fonte: Arquivo do Autor, 2022).
- Os peixes, antes abundantes, tornaram-se raridade. Os que ainda resistem nadam entre plásticos, garrafas e esgotos despejados sem pudor. A poluição e a contaminação de suas águas contrastam com a brisa fresca que embalava a infância dos ribeirinhos. As crianças, que antes brincavam em suas margens, agora se afastam, alertadas pelos pais sobre os perigos que um rio doente pode trazer.

Crimes Ambientais: descarte de resíduos sólidos (lixo) de maneira incorreta pela população no Riacho São José, um dos principais afluentes do Rio Itapecuru, no perímetro urbano do município de Caxias/MA. (Fonte: Arquivo do Autor, 2023)
- Os velhos pescadores e ribeirinhos, de olhar entristecido, sentam-se à beira do que restou do rio e contam histórias de um tempo em que Itapecuru era sinônimo de fartura. Falam do brilho dos peixes prateados, das tardes em que as águas eram tão límpidas que refletiam o céu como um espelho. Hoje, o reflexo é outro. É o de uma humanidade que, cega por sua própria ganância, assiste impassível à morte e a agonia lenta de um de seus maiores tesouros naturais.
- O Rio Itapecuru agoniza e pede socorro. Sua voz é o silêncio dos peixes que já não saltam, o murmúrio das águas que se arrastam cansadas, a dor de quem vive às suas margens e sente sua morte dia após dia. Mas ainda há tempo para salvá-lo? Ou nos resta apenas lamentar, como quem se despede de um velho amigo que partiu cedo demais?
- Se houver esperança, que ela venha como chuva sobre suas águas barrentas e ressecadas. Que brote na consciência ambiental dos que ainda podem agir, no despertar daqueles que compreendem que o rio Itapecuru não agoniza nem morre sozinho. Ele leva consigo a história, a vida e o futuro de todos que dele dependem. E, no fim das contas, todos nós dependemos do Itapecuru para nos alimentar e saciar nossa sede.

Crimes Ambientais: degradação e supressão das matas ciliares nas margens do Rio Itapecuru para a instalação da agricultura familiar ribeirinha, também conhecida como agricultura de vazante, em Áreas de Preservação Permanente (APPs), localizadas em Projetos de Assentamento da Reforma Agrária do Incra, na região dos Cocais (MA). (Fonte: Arquivo do Autor, 2022.)
José Carlos Aroucha.
Engº Florestal, Biólogo, Professor, Ambientalista, Cronista e Escritor
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