O STF no fio da navalha - RICARDO MARQUES
POR RICARDO MARQUES O presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Edson Fachin, fez um belo sermão cívico esta semana, durante uma aula magna para estudantes de Direito em Brasília. Disse que juízes devem ter comportamento irrepreensív
POR RICARDO MARQUES
O presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Edson Fachin, fez um belo sermão cívico esta semana, durante uma aula magna para estudantes de Direito em Brasília. Disse que juízes devem ter comportamento irrepreensível na vida pública e privada.
Citou ética, prudência, integridade. Quase um sermão. Só faltou o “amém”.
Tudo muito bonito. Tudo muito necessário.
O problema é que, no Brasil de hoje, o discurso já não combina com o espetáculo.
Porque o STF deixou de ser apenas Corte… e passou a ser personagem.
E personagem, meus amigos, não julga — atua.
Tomemos um exemplo que grita.
O ministro Flávio Dino, figura central da política maranhense por décadas, hoje ocupa uma cadeira no Supremo e se vê diante de processos diretamente ligados ao seu próprio ambiente político de origem. Um caso emblemático é a ação que discute a nomeação de conselheiros do Tribunal de Contas do Maranhão — processo que está parado há mais de dois anos sob sua relatoria. Dois anos!
Ora, a Justiça não precisa apenas ser imparcial. Tem que parecer imparcial. Tipo a mulher de César, lembra?
Quando um ministro julga temas que envolvem atores políticos com quem manteve relações pessoais, partidárias ou institucionais recentes, instala-se uma sombra sobre a toga. E toga com sombra perde autoridade.
Mas não para por aí.
O problema já não é mais um ministro. É o ambiente.
O que se vê hoje no Supremo não é apenas crise — é desgaste acumulado, é perda de autoridade moral.
Dias Toffoli, cercado de suspeitas, tornou-se um problema dentro da Corte. Mas não é só ele.
Alexandre de Moraes, protagonista dos últimos anos, também passou a operar numa zona cinzenta, onde decisões, relações e episódios recentes fragilizam a imagem de imparcialidade.
E, como se não bastasse, entra em cena o elemento mais preocupante: o presidente da República articulando, nos bastidores, o afastamento de um ministro do Supremo, para aliviar a crise de credibilidade da Corte.
Veja o tamanho do problema.
Quando o chefe do Executivo se move para “resolver” uma crise dentro da Suprema Corte, já não estamos diante de harmonia entre Poderes, mas de contaminação.
A República começa a perder o eixo.
Blindar um ministro, afastar outro, costurar saídas — tudo isso expõe o impensável: o Supremo deixou de ser poder moderador e passou a ser foco de instabilidade.
Não é questão ideológica. É institucional.
Se o STF quiser sobreviver como Corte respeitada, precisa entender o óbvio: ministros sob suspeita não podem permanecer como se nada estivesse acontecendo.
Porque, quando a Justiça perde a moral… perde tudo.
Veja o comentário em vídeo (aqui)
Fonte: O comentário do dia de Ricardo Marques
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