Veneno no ar - Ricardo Marques
O Maranhão descobriu um novo tipo de chuva. Não vem do céu — vem de drones. E não refresca: envenena.
Um levantamento da UFMA — a Universidade Federal do Maranhão — revela que, só nos três primeiros meses de 2026, 222 comunidades rurais foram atingidas por pulverização de agrotóxicos. Janeiro sozinho respondeu por 142 casos. É quase uma epidemia — mas sem manchete, sem sirene, sem comoção.
E repare no detalhe mais incômodo: mais de 75% dessas áreas são comunidades tradicionais. Quilombolas. Indígenas. Ou seja, o veneno tem endereço certo. Não é acidente — é padrão.
Há municípios onde a prática é proibida. Ainda assim, ela acontece. Porque, no Brasil, a lei muitas vezes é um conselho — e não uma ordem.
E agora temos a modernidade do absurdo: drones espalhando veneno sobre gente. A tecnologia chegou. A responsabilidade, não.
Falam em fiscalização, em competências divididas, em reuniões com o Ministério Público. Tudo muito técnico. Muito organizado. Muito lento. Enquanto isso, a população respira dúvida — e, talvez, doença.
Porque o efeito não é imediato. É silencioso. Vai aparecendo aos poucos: na saúde, na água, no futuro de quem nem sabe que foi atingido.
No fim das contas, o Maranhão vive uma contradição cruel: exporta produção agrícola — e importa risco para quem vive na terra.
E assim seguimos: o progresso voa alto… e o veneno cai.
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