Luz feminina: 1ª eletricista da Coelba trilhou caminho árduo até o sonho

Mulheres nasceram para dar à luz. Elas têm a função de genitoras, existem para procriar e ter filhos. Bom, é assim que muita gente retrógrada pensa. O que diriam essas pessoas acaso, em uma noite qualquer de falta de energia, dessem de cara com Lívia Carolina Oliveira, 25 anos? No dia a dia, ela é muito mais do que mãe. Com sua armadura: capacete, luvas, mangas isolantes e um bom alicate de pressão, Lívia é uma guerreira de luz.

Dona de um brilho de infinitos megawatts, ela parece ter nascido para cortar a energia do machismo e clarear um mundo que até então era apenas dos homens. Lívia contrariou uma “regra” que perdurou ao longo das mais de cinco décadas de existência da Companhia de Eletricidade do Estado da Bahia (Coelba). Desde setembro do ano passado, ela passou a ser a primeira mulher eletricista da história da empresa, que em 1997 deixou de ser uma estatal.

Mesmo na semana do Dia Internacional da Mulher, pode soar estranho. Mas, ter se tornado eletricista é a realização de um sonho para Lívia. “Gosto de levar luz para as pessoas. Sempre sonhei com isso”, diz. “Não tem coisa melhor do que resolver o problema de uma comunidade que está sem energia elétrica. As pessoas, as crianças, elas enxergam a gente como salvadores da pátria”.

Quando a Coelba chega, afinal de contas, é para resolver um problema. “Eles fazem festa: ‘Ebaaaa, a Coelba chegou!’. Chega dá vontade de chorar”, relata.

“Hoje ninguém consegue ficar sem luz. As pessoas precisam de suas geladeiras, de suas televisões. Como as pessoas vão carregar os celulares? É um prazer imenso levar eletricidade para as pessoas”, diz a eletricista, justificando o amor pelo que faz. “Sem falar que adoro trabalho em altura”.    

Mas, para conseguir chegar ao topo dos postes que sustentam fios de alta tensão, Lívia trilhou um caminho muito mais árduo do que as escadas que costuma carregar nos ombros. Na verdade, o primeiro a seguir o caminho para entrar na Coelba foi seu irmão. Enquanto ele fazia o curso de formação, ela conseguia um emprego como caixa do restaurante da mesma empresa. Acontece que o local onde os funcionários almoçam fica bem em frente ao centro de treinamentos dos eletricistas. “Eu olhava aquilo e ficava me imaginando ali. Mas nunca tinha visto mulher fazer o curso”.

O caminho até se tornar eletricista foi árduo. Além de cursos, Lívia enfrentou um difícil processo seletivo (Foto: Arisson Marinho/CORREIO)

Pode mulher?
No dia da formatura do irmão, a família encontrou-se com Aloísio Conceição, um dos professores do curso. “Ele é iluminado”, diz. Nessa hora, veio a pergunta que mudou o futuro de Lívia para sempre: “Professor, nesse curso pode mulher?”. Em poucos dias, apenas com conhecimentos do segundo grau, ela fazia o teste eliminatório para o curso de eletricista de Rede de Distribuição (RD), as redes que levam energia para residências, comércios, hospitais, enfim.

Foi reprovada na primeira tentativa, mas resolveu insistir. “Na segunda passei! A pessoa tem que persistir, né?”. Foram quatro meses de curso, 352 horas de estudos, até a formatura. Mas, ainda faltavam alguns passos para se tornar funcionária da empresa. No meio da caminhada, Lívia engravidou. Depois de dar à luz, aí sim, a Dominique, hoje com quatro anos, chegou a trabalhar com telemarketing, mas jamais abandonou a ideia de virar eletricista.

Foi quando o professor Aloísio encontrou com a mãe dela e perguntou pela aluna exemplar. “Cadê sua filha? Ela não quer voltar para a área, não?”. “É o sonho dela”, respondeu a mãe. O professor então a convidou para trabalhar com ele na Escola de Engenharia Eletromecânica da Bahia. Antes, pediu que ela ponderasse sobre a saída do outro emprego.

“Eu disse: ‘Ó, professor. Pelo meu sonho eu saio de qualquer trabalho’. O salário era quase igual. Virei assistente dele”, relembra.

No ano passado, Lívia fez o curso de eletrotécnica da própria EEEMBA. Foi quando surgiu uma vaga de eletricista na Coelba. Um árduo processo seletivo com 600 inscritos para 135 vagas. Os candidatos passaram por uma prova, em seguida fizeram um exame e depois mais duas provas. Sem falar nas certificações. “Passei três meses fazendo o processo seletivo. Eles só queriam os melhores. Graças a Deus eu estava entre eles”.

A mãe de Lívia também trabalha na Coelba. Serviços gerais, Celeste Silva de Oliveira, 45 anos, é conhecida como a “mamãe elétrica” por ter os dois filhos eletricistas. O orgulho supera a preocupação pelo trabalho arriscado. “O coração fica apertado. Mas sinto muito orgulho deles. Principalmente dela. Minha filha é muito corajosa!”.

Fiações clandestinas
O centro onde Lívia treinou é um ambiente que reproduz os sistemas de postes e transformadores. Quer dizer, ao menos tenta. “Na vida real é um pouco diferente, né? O poste não é ‘limpinho’ assim, não. É bem sujo”, entrega Lívia, referindo-se às redes de Internet, telefonia e fiações clandestinas. “É muito arriscado pra gente. Às vezes mistura tudo. Aqui tá uma maravilha, mas não rua não é assim”.

Então, acompanhamos a eletricista em uma ocorrência comum. O chamado, no bairro de Narandiba, se deu em uma casa que estava com a energia oscilando. Lívia, acompanhada de outros três colegas, foi quem abordou o proprietário. O diagnóstico foi rápido.“Tá com falta de neutro. A residência só tá com a fase ligada. Pode ser um conector folgado ou algo que danificou a rede”, detectou, em linguagem técnica.

O proprietário riu e elogiou. “Nunca tinha visto eletricista mulher. Parece que ela conhece bastante, né? Por mim elas dominam o mundo”, disse o aposentado Miguel Ângelo, 70 anos. Em cinco meses de trabalho, Lívia disse que ainda não foi alvo de preconceito. “Olha, por enquanto a receptividade é boa. O pessoal fica olhando admirado eu subindo no poste, ficam desconfiados. Dia desses um perguntou a meu colega: ‘Você vai deixar ela subir, é?’”.

Enquanto não chega a ser engenheira elétrica, Lívia convoca outras mulheres. ‘Não precisa ter medo. Somos mais cuidadosas’ (Foto: Arisson Marinho)

E os colegas? Como reagem? “Todos que trabalhei foram super parceiros”. Sempre tomando a dianteira, Lívia mexe na rede, aperta conectores, troca transformadores. Para ser eletricista, diz ela, é preciso confiar nos seus conhecimentos. “A primeira coisa que tem que ter é prudência. Depois conhecimento, respeito à sinalização e aos limites. Tem que aprender a lidar com o perigo que está ali perto. Se você tiver isso, nunca vai se machucar”.

Lívia gostaria de ver outras mulheres fazendo o que ela faz. Um mês depois de ingressar na empresa, uma colega conseguiu o feito. Jamile Nascimento Souza segue pelo mesmo caminho. “Infelizmente tem pouca gente na área. A mulher tem que entender que não precisa ter medo de eletricidade. A partir do momento que você tem o conhecimento, não existe isso de sexo frágil. Ao contrário, a mulher é mais cuidadosa”.

Quem conhece de segurança, diz que as mulheres são muito bem vindas. “Eletricidade não tem cor e nem cheiro. Qualquer detalhe você pode se acidentar gravemente. As mulheres são mais cuidadosas com elas mesmas e com as outras pessoas”, diz Mário Jambeiro, engenheiro de segurança do trabalho da Coelba. Se bem que, na atividade de Lívia, o risco maior não é nem o choque. O pior é a violência nas comunidades dominadas pelo tráfico. “Tem muito lugar complicado de a gente entrar”.

Daqui para frente, o objetivo de Lívia é chegar a atuar na chamada turma de linha viva, que trabalha com a rede elétrica ligada. “Pra mexer com a alta tensão ligada não é fácil. Vai ser preciso muito estudo para chegar lá. Muito estudo e treinamento”. Assim que tiver oportunidade, quer fazer o curso superior de engenharia elétrica. Aí sim, com seus próprios projetos, poderá levar luz para quem não tem. É o ponto mais alto do seu sonho. “Quero ir para esses interiores aí que estão no escuro. Imagine você acender uma lâmpada em um lugar como esse? Que festa não deve ser”.

***

Quer trilhar o mesmo caminho de Lívia? Fique atento!
Desde setembro do ano passado, a Coelba deu início a um processo de contratação de funcionários, sejam terceirizados que já trabalham para a empresa ou novos eletricistas, como aconteceu com Lívia. Volta e meia, serão abertas inscrições para cursos e seleções. No primeiro processo seletivo, foram contratados 275 profissionais. Até o final de 2018 serão 1.085 novos empregos gerados. Se você se interessa pela área, fique atento ao perfil necessário para se tornar eletricista da empresa.

• Sexo masculino/ feminino.

• Ensino médio completo.

• Curso de Eletricista de Rede/ Predial/ Industrial (desejável)

• Habilitação definitiva categoria “B”.

• Idade mínima de 18 anos completos

• Experiência de 2 anos como Eletricista de Distribuição em Linha de Rede (desejável).

• Residir na região da vaga (preferencialmente).

Cadastro: o processo de seleção é feito por uma consultoria externa, os candidatos devem se cadastrar em um banco no site www.vagas.com/neoenergia e/ou ficar atento às divulgações feitas pelas consultorias externas nas cidades onde existirem vagas (internet, carro de som, jornal, etc).

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