Lula e Flávio Bolsonaro na Globo - Joaquim Haickel
Por Joaquim Haickel
Assisti às entrevistas concedidas por Lula e Flávio Bolsonaro à TV Globo e confesso que algumas declarações me causaram perplexidade. Outras despertaram dúvidas que considero legítimas e que merecem respostas mais convincentes.
Antes de qualquer comentário sobre os entrevistados, faço questão de registrar que a melhor coisa das duas entrevistas foi Renata Lo Prete, que se portou com extrema elegância, muita inteligência e impecável isenção.
Comecemos por Lula.
Logo no início, o presidente afirmou: “Eu sou o governo.” A frase me fez lembrar Luís XIV, o Rei Sol, a quem se atribui a célebre expressão “O Estado sou eu”. Evidentemente, os contextos são diferentes. Lula falava de sua responsabilidade pelos resultados do governo, e não reivindicava diretamente poderes absolutos. Ainda assim, a comparação me ocorreu, sobretudo porque, na mesma entrevista, lamentou não ter conseguido fazer a população compreender suas realizações. Será que o problema está apenas na compreensão dos brasileiros?
O presidente afirmou que precisou de dois anos e meio para recuperar o país que recebeu. Mas não podemos esquecer que, dos últimos 24 anos, Lula e seu grupo político ocuparam a Presidência durante aproximadamente vinte anos. É evidente que governos anteriores não podem ser responsabilizados por tudo o que acontece depois deles, mas também não parece razoável tratar a história recente do Brasil como se ele e o PT tivessem sido apenas espectadores.
Lula declarou ainda que, quando assumiu, não havia dinheiro para praticamente nada. Entretanto, a dívida pública brasileira continuou crescendo e, segundo dados divulgados pela Reuters, alcançou 82,9% do PIB em 2026. A dívida não cresce exclusivamente por falta de controle das despesas, pois juros, inflação e desempenho econômico também interferem em sua trajetória. Mas como conciliar a preocupação declarada com o endividamento e a resistência em enfrentar a necessidade de ajustes fiscais?
No comércio exterior, o presidente afirmou que as relações comerciais com os Estados Unidos haviam diminuído 9%, enquanto as trocas com a China cresceram 20%, com a Indonésia, 15%, com a Alemanha, 16%, e com o Vietnã, 13%. Entretanto, os dados que consultei para janeiro a setembro de 2026 indicam queda de 6,8% na corrente de comércio com os Estados Unidos e crescimento de 11,1% com a China. Os demais percentuais ainda precisam de conferência equivalente. Ao que tudo indica, a verdade continua passando longe do presidente.
Outro momento que me chamou a atenção foi a discussão sobre o Supremo Tribunal Federal. Lula afirmou que seus adversários desejam afastar Alexandre de Moraes não apenas pelas suspeitas relacionadas ao Banco Master, mas também pela prisão de Jair Bolsonaro. Não apenas? Será que eventuais irregularidades envolvendo um ministro do Supremo já não seriam, por si mesmas, suficientemente graves para justificar investigação rigorosa, independentemente das motivações políticas de quem a defende?
Também me intrigou a discussão sobre o pedido de vista de Flávio Dino, que interrompeu a análise de questões processuais relacionadas à investigação de Moraes. O presidente afirmou não poder interferir nas decisões dos ministros, o que está correto. Mas o que a sociedade precisa saber é quando essas questões serão esclarecidas e se todos os envolvidos estarão sujeitos aos mesmos critérios de investigação. Sobre esse assunto, ele deixou escapar uma frase sobre Flávio Dino: “o que nós queremos”. A quem Lula se referia ao dizer “nós”? A ele próprio e a Flávio Dino?
Quanto ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, Lula ressaltou sua autonomia e reconheceu ter considerado insatisfatórias as explicações que recebeu sobre sua participação em um evento relacionado ao caso Master. A autonomia institucional é indispensável, mas não elimina a responsabilidade administrativa nem a necessidade de prestar esclarecimentos.
Talvez a declaração mais surpreendente tenha sido a de que Lula desconhecia a ausência de reajuste do Bolsa Família durante seu próprio governo. O benefício permaneceu sem correção geral até setembro de 2026, quando foi anunciado um aumento de 15%, pouco antes do primeiro turno. É possível que o presidente não acompanhe pessoalmente cada detalhe da administração. Mas estamos falando de um dos programas mais importantes e identificados com sua trajetória política. Como explicar tamanho desconhecimento?
E por que tantas medidas de grande apelo popular foram anunciadas justamente às vésperas das eleições? A proximidade do pleito não demonstra, por si só, intenção eleitoreira, mas torna indispensável discutir o momento escolhido, os custos envolvidos e as fontes de financiamento.
Passemos agora a Flávio Bolsonaro.
Em minha opinião, Flávio saiu-se melhor que Lula, principalmente porque ser Lula é uma coisa muito complicada, algo quase indefensável.
Flávio pareceu à vontade, um tanto descontraído, e respondeu a quase todas as perguntas sem fugir muito delas, ao contrário do que eu esperava.
Respondeu com desenvoltura e credibilidade às perguntas sobre economia, administração governamental e reforma do Poder Judiciário, não dando muita margem para críticas.
Até mesmo sobre o caso Dark Horse, ele não se saiu tão mal, embora não tenha ficado muito claro por que o valor solicitado ao Banco Master para patrocinar o filme teria sido o dobro de seu custo de produção.
Penso, entretanto, que não se saiu muito bem quando respondeu sobre a possibilidade de colocar seu pai e seu irmão em cargos do governo federal.
Em relação ao pai, disse que nunca trataram desse assunto, o que não é uma negação direta. Caso ele nomeie Jair Bolsonaro para algum cargo, cometerá um erro inominável. Jair deve ocupar o cargo de pai do presidente, de conselheiro pessoal e particular, sem nenhum vínculo com a administração.
No caso de seu irmão, Eduardo Bolsonaro, Flávio negou categoricamente que fosse nomeá-lo ministro das Relações Exteriores, o que é muito bom, mas deixou em aberto a possibilidade de que ele ocupe outro cargo. Caso resolva nomear o irmão para qualquer outra função, cometerá um erro grave, pois nomeará alguém que poderá lhe causar grandes problemas e cuja eventual demissão criaria uma situação de consequências incalculáveis.
Houve, entretanto, uma pergunta que, a meu ver, o atingiu em cheio, envolvendo um assunto sobre o qual eu jamais havia ouvido falar.
Renata Lo Prete questionou Flávio sobre o PL 3.723/2019, apresentado pelo governo de seu pai, que, em sua versão original, propunha eliminar exigências de identificação de munições. A jornalista quis saber como essa medida ajudaria a combater o crime organizado. Flávio não respondeu diretamente e ainda tratou a questão como um “detalhezinho”.
Fico imaginando o que pode passar na cabeça de alguém para propor uma coisa absurda dessas. Por essa e por outras é que eu digo que a família Bolsonaro não precisa de opositores, pois seus integrantes são seus próprios maiores adversários.
O certo é que, em minha avaliação, a entrevista de Flávio Bolsonaro foi melhor que a concedida por Lula no dia anterior. Entretanto, uma coisa me chamou a atenção: assuntos bastante sensíveis para ambos os candidatos não foram abordados. Lula não foi questionado sobre o Mensalão, o Petrolão, o chamado BNDESão, a Lava Jato e o caso do INSS. Já Flávio não foi questionado sobre o caso das rachadinhas nem sobre as suspeitas de vínculos com milicianos.
Uma boa entrevista, porém, não garante um bom governo, assim como uma entrevista ruim não basta para definir toda uma administração. O que importa, em última análise, é a capacidade de transformar palavras em ações e promessas em resultados.
Considero indispensável que qualquer presidente, seja ele quem for, responda por seus atos, reconheça seus erros e apresente informações verificáveis.
Afinal, governar não é apenas dizer o que foi feito ou prometer o que será realizado. É demonstrar o que foi feito, explicar como foi feito e assumir as consequências do que deixou de ser feito.
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