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CHICO DO CINEMA, 82 ANOS - No Cine Rex, ele foi um grande personagem..

CHICO DO CINEMA, 82 ANOS - No Cine Rex, ele foi um grande personagem..

Chico do Cinema, aos 23 anos e agora.

Fonte: EDMILSON SANCHES | Autor: Valdir Rios | Esse o POVO não esquece | 27/03/2026 14:24 | 134 visualizações
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Saúde.

Cinco letras, uma palavra. Único desejo.

Neste 17 de março de 2026, Francisco das Chagas Pinto Costa (ou, no popular, Chico do Cinema) completa 82 anos de vida. E nesta data ele não se lembra de Deus para pedir que se cumpram os direitos que a Justiça já lhe assegurou e que lhe poderiam, a essa altura do campeonato da existência, lhe propiciar dias futuros menos difíceis. Não. A Deus, Chico só pede saúde. É a tal história: saúde é bom demais, o resto corre-se atrás.

O menino Francisco nasceu em Caxias, no povoado Barra do Brejo, em 17 de março de 1944. Era filho do seu Aldezi Ferreira Costa, motorista de caminhão, e de dona Maria de Jesus Pinto Costa, professora. Era o primogênito, o mais velho dos filhos; teve dois irmãos: Maria Concebida Pinto Costa, assistente social do DNOCS (Departamento Nacional de Obras Contra as Secas, do Governo Federal, vinculada ao Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional), residente em Teresina (PI), e José de Ribamar Pinto Costa, funcionário aposentado da Caixa Econômica Federal. Residente em Caxias.

O pai, Aldezi, cuidou de mandar a família do povoado para a cidade. Motorista de um caminhão Dodge de propriedade do seu patrão, Alderico de Novais Machado, de quem era trabalhador de confiança. Alderico Machado, que chegou a ser deputado e governador interino do Maranhão, foi um grande empreendedor do Leste maranhense; as terras férteis de sua fazenda São João levaram aos negócios agropecuários e industriais, que levaram à abertura de estradas pelo próprio Alderico... e tudo isso e muito mais terminou conduzindo à constituição do município de Aldeias Altas, que ficou com o antigo nome de Caxias, de cujo território, com o desmembramento legal de 26/12/1961, Aldeias Altas levou 1.942 km2 e alguns metros, onde hoje moram cerca de 24 mil habitantes  ---  lembrando que a primeira casa do lugar foi a de Alderico Machado, que a construiu em 1918, após ele decidir pela exploração econômica das potencialidades de sua propriedade.

Na residência da família do seu Alderico em Caxias, a família Machado recebeu bem e deu apoio a dona Maria de Jesus e filhos. Francisco é até hoje agradecido e diz ter boas relações de amizade com os descendentes de Alderico Machado, de João Machado..., dos quais tem lembranças boas de acontecências e características, coisas de outrora que mantém até agora.

Distintamente dos irmãos, Francisco não quis prosseguir nos estudos. “Eu era rudo”, conta Francisco, usando a palavra com que, geralmente no interior, se diz do menino ou de qualquer pessoa pouco afeita a estudos, à instrução escolar. Fez até o 3º ano do Primário (hoje 3º ano dos nove do Ensino Fundamental), na Escola (hoje Centro de Ensino) Eugênio Barros, dirigido pela professora Jacira Vilanova, ali na Rua do Pau d’Água (hoje Rua Manoel Gonçalves). A mãe, professora mas sobretudo mãe, não o forçou: sabia, como mãe e professora, “ler” o filho, que era um livro aberto para ela. 

Se não ia estudar, podia trabalhar... E foi ao trabalho, muitos e variados, que o rapazote Francisco se dedicou. Foi catador de lenha e de pequi na chapada. Ele e um primo, o Zé Pindoba (José Ribamar Sousa Pinto), todo santo dia, de segunda-feira a sábado, de 7h da manhã às 18h, muniam-se de uma cabaça de água, o “almoço” (duas rapaduras e dois sacos com uns dois quilos de farinha) e uma récua com oito jumentos de carga, cada um, ao final do dia, trazendo dois jacás nos lados e mais um cofo no alto da cangalha, cheios da drupa (o fruto) do pequi, pelo menos 15 mil deles, para serem levados pelo trem que parava na estação “Iacina”, na zona rural de Caxias.

Serviço não faltava para Francisco  --- e, se faltasse, ele ia procurar... Plantava roça em vazante, que era a época de estiagem, quando sumiam as enchentes e surgiam as margens e leitos férteis de rios onde se podia plantar. Do brocar ao colher, Francisco fazia. Se no “mato” não estava bom para plantação e coleta, na cidade Francisco aprendeu a ser sapateiro, especificamente, cortador. Aprendeu o ofício e trabalhou com grandes sapateiros de antanho: Arias “Catita” (no centro de Caxias), Cornélio (no bairro Cangalheiro), Antônio Palhano (próximo ao Largo de São Sebastião, no centro). Fazia serviços gerais em escola, no Ginásio Duque de Caxias (do Projeto Bandeirantes), de onde retém a lembrança da diretora Labibe Gedeon Simão se juntando aos auxiliares na lavação e limpeza geral periódica da escola. (Estudei no Duque de Caxias todo o Ginásio  --- hoje 5º ao 8º anos do Ensino Fundamental. Fui vizinho da professora Dona Labibe, na Rua do Cisco / Benedito Leite / Fauze Simão; ela, dedicada, foi secretária municipal de Educação, na administração do prefeito José Ferreira de Castro).

Francisco foi garçom por um ano, em pequeno mas movimentado estabelecimento no Largo de São Sebastião. Foi fotógrafo. Foi vigilante “fichado” em grandes empresas do ramo, tendo prestado esse serviço em grandes Instituições Financeiras. E, aos 82 anos, Francisco ainda trabalha, e muito: é vigia em um antigo e vazio prédio no centro de Caxias e, pra variar, é mototaxista nas horas de folga...

Francisco fez filhos, com dona Maria das Graças Pinho Costa (“in memoriam”), servidora pública estadual e, segundo ele, “a mais bela entre quatro irmãs” (e também irmã do contabilista Chagas Pinho, que, junto comigo, na adolescência, trabalhamos na antiga Refinaria, a indústria de óleos vegetais A Silva  ---  o Pinho, na Contabilidade; eu, responsável pelo Crédito e Cadastro; o Dílson, pela Cobrança, e dona Francisca Torres Pacheco, a Tesoureira, mandando em todo mundo...).

São três filhos de Francisco: Richard, técnico agrícola; Aldezi Neto e Francisco das Chagas Filho, servidores públicos municipais. Os filhos ampliaram a descendência e genética de Francisco: são nada menos que quinze netos e três bisnetos.

*

A “HORA DOS MISERÁVEIS” - Entre todas as atividades, todos os trabalhos com que Francisco se houve para ir sustentando a si e à família nessa sua longa estrada da vida, nenhum o marcou tanto, sobretudo em exposição social, como o ofício de porteiro do Cine Rex, o, digamos, mais sofisticado dos dois mais populares cinemas de Caxias. O outro foi o Cine São Luís, ao lado do tradicional Excelsior Hotel. O São Luís era mais povão, com programação de filmes “western”, gladiadores romanos, artes marciais... O Rex também programava filmes assim, mas tinha opções mais “elitizadas”: lembro que foi no Cine Rex que assisti a “Eram os Deuses Astronautas”, documentário de 1970, baseado em livro de Erich Von Daniken (falecido em janeiro deste ano); assisti a “Dio, Come ti Amo!”, de 1966, com a cantora e atriz italiana Gigliola Cinquetti. 

Assisti a muuuuuuuitos filmes, tanto no Cine Rex quanto no Cine São Luís. Tempo dos “seriados”, filmes que eram exibidos em partes antes do filme principal, cada parte como se fosse capítulo de novela, sempre deixando um suspense, para estimular o espectador a assistir ao próximo filme, no fim de semana seguinte, quando era exibida uma nova parte e assim por diante.

Foi nesse tempo que conheci o Francisco, agora o Chico do Cinema, bem antes dos 13 anos, quando passei em primeiro lugar em concurso seletivo do Banco do Brasil e tornei-me o primeiro menor estagiário da agência de Caxias. Digo isso porque, a partir dessa idade, trabalhando no Banco, eu tinha como pagar minha própria entrada nos cinemas. Antes, dos seis aos 12 anos, ou alguém da família bancava (o filme da “Paixão de Cristo”, na Semana Santa, era quase obrigatório) ou eu apurava algum dinheiro com a venda de revistas em quadrinhos no concorrido troca-troca de publicações que havia em frente ao Cine São Luís. 

Portanto, antes dos 13 anos, quando não tinha como comprar ingresso, eu e diversos outros menores, geralmente a partir dos oito anos, ficávamos em frente ao Cine Rex, conversando, conversando, lendo revistinhas (“gibis”), conversando... e esperando. O quê? Pausa.

Naqueles idos, segunda metade da década de 1960 e primeira da década de 1970, na famosa Rua Afonso Cunha, a mais comercial do centro da cidade (hoje um calçadão), o Cine Rex era de propriedade do Sr. Carvalho Neto. Lá pelas 19h ele costumava sair do cinema para juntar-se aos amigos no Senadinho, um ponto de encontro onde política, baralho e vida alheia se misturavam sadiamente. No cinema ficavam, na bilheteria, Maria Amélia (falecida há alguns anos), mulher bonita que  --- diziam ---  sabia da vida de muita gente... Na gerência, e com um olho na sala de projeção, um outro Francisco, Na projeção, o Natan, o Rodrigo, o Valmir e o quarto projecionista, também de nome Francisco (eram quatro Franciscos no Cine Rex). Na portaria, é claro, o Francisco das Chagas Pinto Costa, o Chico do Cinema, alto, magro, bigodão e cabeleira bem feitos, bem vestido, alinhado, sempre de camisa de magas compridas  ---- afinal, era a pessoa de maior contato e visibilidade  do Cine Rex. Era quase uma autoridade da noite. Nos 17 anos que trabalhou nesse cinema, personificou-o, a ponto de até hoje ser conhecido ou apelidado como Chico do Cinema, ou Chico do Cine Rex. Cuidadoso e inflexível na admissão dos compradores de ingresso ao salão de cartazes e à sala do cinema propriamente dito, o Chico tinha ali, na portaria, um lado de compreensão e bondade. 

Ele compreendia que aqueles meninos ali à frente do cinema eram garotos que gostavam de filmes e que naquele momento não tinham o suficiente para pagar um ingresso. Não eram maus meninos  ---  eram interessados, eram curiosos, amavam assistir a filmes... E aí o Chico, em determinada hora, já o filme bem avançado em tempo, o Chico tirava a corrente que unia as duas colunas de ferro da entrada e liberava o acesso dos guris. Mas com ordem. 

Naquele instante, Chico era porteiro e professor: dizia para entrarmos discretamente, sem barulho; não devíamos nos sentar em cadeira para não incomodar os espectadores em plena terça ou quarta parte final do filme; deveríamos ficar sentados nos corredores, ou em pé, atrás da última fileira de assentos. Em silêncio. 

Eram as regras do Chico do Cinema  --- e sua palavra, ali, era lei, sob pena de nunca mais permitir a entrada do garoto que não respeitasse as orientações. Aquele momento, em que o Chico liberava o ingresso dos meninos, aquele momento ganhou um nome: a “hora dos miseráveis”... Ainda hoje alguns daqueles meninos (entre eles meus tios, que também eram menores à época) nos lembramos daquele instante e do nome que ele ganhou. Não havia nenhum preconceito nem nada de pejorativo na expressão, até porque “hora dos miseráveis” poderia também ser entendido como a hora em que podiam entrar sem pagar até aqueles que tinham dinheiro para o ingresso, mas preferiam assistir à parte final do filme e economizar seu rico dinheirinho, como se fosse um pão-duro, um muquirana, um Ebenezer Scrooge, o adorável avarento de “Um Conto de Natal”, que o inglês Charles Dickens escreveu em 1843 e que foi filmado e refilmado desde 1951  ---  e que assisti a praticamente todas as gravações, inclusive em animações (desenhos). 

Devo ter assistido a muitos filmes em seus 30% finais. Tenho certeza de que até isso poderia fazer bem ao cérebro dos meninos, naquela fase de mais hormônios do que neurônios, pelo esforço ou uso intensivo do cérebro, “forçando” conexões interneuronais (sinapses) para juntar os pontos e as pontas do filme, identificar quem eram e o que faziam os personagens... Enfim, tínhamos de “rodar” ou fazer nosso próprio filme, isto é, aquela parte a que não havíamos assistido, para podermos minimamente compreender a história... Geralmente sabíamos quem era o “artista”, nome que dávamos ao protagonista, o “mocinho” ou herói do filme.

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Chico do Cinema e eu viramos amigos. Há muitas décadas. Ali na praça Gonçalves Dias, em seu ponto de mototáxi, eventualmente pelas ruas ou no local de trabalho dele, conversamos, rimos, lembramo-nos das lembranças comuns. Homem de fé, ele diz orar por mim, torcer por mim. Neste 17 de março, um filme de longa metragem estará passando na cabeça do Chico do Cinema. Ele, que nasceu no interior caxiense, na Barra do Brejo, passou pelo centro, pelo Morro do Alecrim, pelas proximidades do Cemitério dos Remédios, pelo Dinir Silva e outros bairros e lugares onde morou. Hoje, Chico do Cinema mora no Teso Duro, bairro distante, enodoado pelas montanhas de lixo “que nunca se acabam”, segundo ele.

Uma dura verdade/realidade nos ensina  --- duramente ---  que, no filme da vida, o ator principal sempre morre no final... 

Na portaria do Cine Rex, Chico foi um grande personagem... Continuando no cinema  --- da vida ---, enquanto houver “frames”, quadros, fotogramas de tempo, Chico vai vivendo de modo real os personagens que, dia a dia, aos 82 anos, a vida o obriga a interpretar... e dirigir.

Nos seus 82 anos, Chico do Cinema não fará festa nem será festejado. Para o dia de aniversário e para os demais dias que hão de vir, Chico do Cinema não precisa de “Luzes! Câmera! Ação!”

Aos 82 anos, bastam-lhe Fé... Paz... e Saúde...

É o que lhe desejamos.

Parabéns, Chico.

EDMILSON SANCHES 
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CURSOS - PALESTRAS – CONSULTORIA
Administração – Biografias - Comunicação - Desenvolvimento - História – Literatura - Motivação
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