A pressa do desembarque - Ricardo Marques
A política brasileira produziu uma espécie curiosa de personagem: o especialista em desembarque.
Ele embarca sorrindo. Elogia o comandante. Exalta a tripulação. Garante fidelidade à rota. Faz discursos sobre amizade, parceria e confiança.
Mas basta enxergar um barco mais atraente no horizonte para descobrir, de repente, que sempre esteve pronto para a travessia.
André Fufuca talvez esteja aprendendo uma das lições mais antigas da política: trocar de embarcação é um direito. Convencer os passageiros de que a mudança foi natural é outra história.
Durante anos, foi tratado como aliado privilegiado do governo Carlos Brandão. Recebeu prestígio, espaço político e apoio. Nada disso era segredo para ninguém.
Por isso a reação foi tão intensa.
Nas redes sociais, vieram as críticas. Nos bastidores, vieram as cobranças. E o mais significativo: prefeitos que caminhavam ao seu lado começaram a manifestar surpresa, desconforto e até decepção.
Não porque um político seja obrigado a permanecer eternamente no mesmo grupo. Política não é casamento religioso.
Mas porque existe uma diferença entre mudar de posição e parecer ingrato com quem lhe estendeu a mão.
Talvez o erro de Fufuca não tenha sido mudar de lado.
Talvez tenha sido imaginar que ninguém perceberia a velocidade da mudança.
Afinal, a memória do eleitor pode ser curta para muitas coisas. Mas costuma funcionar muito bem quando o assunto é gratidão.
E existe outro detalhe.
A política do Maranhão tem uma longa tradição de castigar os profetas apressados.
Muitos já receberam antecipadamente a faixa de governador nas pesquisas, nos bastidores e nas rodas de conversa. Alguns descobriram depois que eleição se vence nas urnas, não nas previsões.
Por isso, mais do que uma mudança de lado, o episódio parece revelar uma aposta.
E toda aposta tem riscos.
Sobretudo quando o bilhete é preenchido antes do início da corrida.
Veja o comentário em vídeo (aqui)
Fonte: O comentário do dia de Ricardo Marques
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