Justiça no palanque - RICARDO MARQUES
George Orwell escreveu 1984 como uma advertência sobre uma sociedade em que o poder estava em toda parte. O Grande Irmão observava, controlava e, sobretudo, criava uma atmosfera na qual ninguém sabia exatamente onde terminava a realidade e começava a versão oficial dos fatos.
Guardadas todas as proporções — porque o Maranhão de hoje evidentemente não é a Oceânia de Orwell —, há uma coincidência inquietante no ambiente político: a sensação de que a disputa deixou de acontecer apenas onde deveria acontecer.
A política maranhense está cada vez mais judicializada.
Decisões administrativas viram processos.
Conflitos políticos chegam aos tribunais.
Adversários recorrem à Justiça.
Decisões judiciais produzem consequências políticas.
E aquilo que deveria ser resolvido pelo voto, pelo debate público e pelas instituições políticas frequentemente termina dependendo de uma decisão judicial.
Não se trata de questionar o papel da Justiça.
Pelo contrário.
Democracia sem Judiciário independente não existe.
O problema começa quando a política passa a enxergar o tribunal como continuação do palanque — e quando cada decisão judicial passa a ser interpretada como movimento de um gigantesco tabuleiro político.
Em 1984, Orwell escreveu sobre o poder de controlar a realidade.
No Maranhão de 2026, a pergunta é outra: até que ponto a excessiva judicialização da política começa também a mudar a própria percepção da realidade?
Quando tudo vira processo, suspeita, recurso e decisão judicial, o cidadão já não sabe se está assistindo a uma disputa jurídica com consequências políticas… ou a uma disputa política travada por instrumentos jurídicos.
E talvez seja justamente essa dúvida o aspecto mais preocupante.
Veja o comentário em vídeo (aqui)
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